terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Carta a Clarice Lispector

Minha cara Clarice,

Perdoe-me a audácia em chamar você de minha, mas acontece que a Clarice que habita meu imaginário é só minha, assim como você é sua, e quem me lê se apropria um pouco de mim. Eu nunca imaginei que isso acontecesse, Clarice, mas com o tempo, aprendi a ser ousada. Ainda tenho muito que aprender, mas muito mesmo, porque ainda tenho mais da metade de toda a timidez que mal me fazia ter coragem de abrir a boca para falar em público. Pois então, não era bem isso que eu queria te dizer.
Eu sei que pode soar estranho, mas eu tenho medo de você. Eu tenho medo do que eu sinto por você. E tenho muito medo do que você me faz sentir. Aprendi também a te amar tanto, Clarice, e mais ainda porque você, sem saber, me conhece mais do que eu conheço. Eu jamais poderei me conhecer como você me conhece. É, sou audaciosa também, mas é verdade. Acredite você que às vezes, te lendo, eu penso que nós duas poderíamos ser a mesma pessoa. Você acreditava em reencarnação, não é mesmo? Pois eu acredito. E mesmo que não seja eu, você escreveu tudo o que um dia eu quis escrever. Você sentiu o que eu sentiria se tivesse vivido por você. E eu te agradeço porque eu sinto que você viveu “nossa” vida muito bem. Você algumas vezes disse que vivia a vida dos outros, que sentia os sentimentos do mundo, e eu te agradeço imensamente por ter sentido por mim quando eu nem existia. Mas ao mesmo tempo, eu sempre existi em potência, porque depois de você, eu teria de existir para te agradecer. E sentir, e amar. E odiar também, porque é da vida.
Eu tenho certeza de que eu te enviaria essa carta caso você ainda estivesse entre nós, mas eu sei também que, onde quer que você esteja reencarnada ou não, você continua sentindo por todos nós. Continua sendo um coração batendo no mundo, inventando realidades que só você sabe inventar.

Desculpe o pudor que ainda tenho tão grande dentro de mim. E a falta de bom senso, se é que o tenho.

Obrigada pelo que você nem sabe que fez.