segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Necessidade de ir embora

Desde que eu me entendo por gente não me sinto adaptada à minha família. Até os meus 7 ou 8 anos de idade, meu pai me levava pra todo canto, acho que porque até essa idade eu ainda era muito moleca, não era tão feminina quanto deveria talvez, e aí eu devia suprir uma vontade dele de ter um filho homem. Com o tempo fui desenvolvendo um jeito mais feminino, eu acho...não sei bem, mas deve ser isso, e ai ele perdeu o interesse em mim. Minha mãe sempre foi possessiva, com meu pai e comigo. Até os 15 anos ela era obcecada com uma ideia de que eu não podia ter amizade com meninos, namorar ou conversar com meninos, ao ponto de me seguir algumas vezes e ir no colégio que eu estudava pra armar barraco porque eu acabava fazendo amizade com meninos e eles me ligavam. Claro que ela não queria isso e por isso, nada mais justo, que ela fizesse isso parar. Teve um tempo em que ela me criticava por tudo, apesar de eu nunca ter dado muitos motivos pra ela reclamar. Como era obcecada, minha vida até metade da adolescência era casa-colégio-casa de amigas, e detalhe, o colégio é em frente minha casa, o que é outra história longa, porque nem sempre morei onde moro, em frente o colégio que estudei dos 6 aos 17 anos. O fato é que fui criada pra ficar trancada em casa, pra ser dependente. Até que chegou um dia em que minha mãe ficou muito doente, adquiriu (?) síndrome do pânico e outras doenças neurológicas associadas (creio eu, tendo em vista as crises que ela tinha e tem de vez em quando) e eu me vi tendo de viver de um jeito diferente. Esse período coincidiu com a época em que conheci meu noivo e alguns anos depois entrei na faculdade. Tudo mudou, desde então, inclusive a tal da possessividade. Nunca tive e nem vi nos meus pais amigos, muito menos na minha mãe, apesar de ter tido boas conversas sóbrias com ela, nos poucos momentos conscientemente conscientes (!) dela (falando assim parece que eu faço um retrato diferente dela, mas pensando bem e objetificando isso na escrita, é isso mesmo, só que parece menos familiar olhando por esse ângulo. Às vezes me sinto muito mal pela figura que eu pinto dela, muito embora as pessoas que usam e abusam de remédio tarja preta, como é o caso dela, geralmente agem de uma forma quase inconsciente, de acordo com aquela expressão: agiu sem pensar, ou ainda, não é porque ela quer, e por aí vai. O fato é que muitos anos de remédio tarja preta acabam com a pessoa, como ela costumava ser, apesar de que se torna algo necessário devido aos tratamentos e tal. Vejo isso todos os dias, em como ela foi se transformando no decorrer dos anos, em como ela fica totalmente aérea na maior parte do tempo, em como ela esquece que existe limites nas relações, em como ela desrespeita os limites dos outros...enfim), como quando finalmente eu disse que não era mais virgem, apesar de já ser algo bem óbvio. Houve um tempo em que eu pensei que levaria ela comigo, pra onde eu fosse, pelo simples fato de que ela é minha mãe e é isso que os filhos devem fazer. Mas na real as coisas não são assim, e sabe o porquê? Porque TODO mundo deve ter uma chance ou mais de viver a própria vida, de cair sozinho, de construir seu mundo do seu jeito, de ter suas coisas compradas com seu suor, de ter seu lugar no mundo. Quando eu descobri quem eu sou, do que eu gosto, de como eu vejo as coisas, de como eu gosto de viver minha vida, meus relacionamentos, eu descobri que preciso de espaço. Hoje em dia estamos, eu e meu noivo, esperando há mais de um ano que nosso apartamento seja liberado (na verdade, compramos o ap antes da obra terminar -dinheiro fruto da venda da casa que moramos durante anos, eu e meus pais, outra longa história - e quando estávamos já preparados para dar entrada no financiamento, o banco suspendeu os financiamentos devido a uma documentação que faltava do condomínio. Compramos em janeiro de 2014...) e eu não consigo mais não querer ir embora o quanto antes. Se eu pudesse, já teria ido embora há tempos. Acho que a possibilidade de ir embora, o fato de já ter comprado um monte de coisas pro ap novo (móveis, utensílios de cozinha, artigos de decoração, eletrodomésticos), a convivência que não anda lá essas coisas, a falta de espaço pra guardar as coisas, a falta de privacidade, a falta de um espaço pra trabalhar e estudar tranquilamente....tudo isso vira uma bola de neve gigante e tem me deixado tão mal, tem me adoecido tanto, que todo dia eu acordo sem ânimo, sem prazer nem para fazer as coisas que eu sempre gostei. Por isso, tenho muitas, mas muitas esperanças de que essa mudança de ambiente seja também uma mudança psicológica, mental, emocional, espiritual porque preciso urgentemente disso. Não posso e nem devo me sentir uma pessoa péssima por querer me resgatar.