quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Drama urbano.

O despertador tocou. Ela levantou e ficou em pé diante do espelho. Fechou os olhos, abriu, fechou de novo, eles estavam embaçados. Será que por que eu chorei tanto antes de ir dormir? Ela pensou. E pensou também que um dia esse corpo ia ser totalmente diferente. Pensou que o Jorginho ia se arrepender pelo resto da vida por tê-la feito chorar tanto, por tudo, por tudo mesmo. Ela ficou de perfil, ainda diante do espelho e deu uma leve empinada no bum bum: um dia eu vou ser gostosa, e todo mundo vai me querer! Ela jurava de si pra si, que um dia, ia passar na cara de todos os meninos da rua, da escola, do mundo todo, que ela podia ser tão linda e gostosa como aquela atriz da novela das oito. Ela podia aprender a dançar, e quem sabe atuar, e quem sabe poderia escrever um livro contanto a história de menina gordinha, de óculos e aparelho nos dentes que se tornou uma beldade da novela! Por que não? Seus pais tinha dinheiro o suficiente para pagar academia, cirurgia plástica, o que fosse preciso pra que ela mudasse. E por que ainda estava daquele jeito? Por que mesmo, hein? Hoje é dia de mudança! Sorriu pra imagem do espelho, foi tomar um banho, já era hora de sair pra escola. Daquele dia em diante, NUNCA MAIS! Agora ela pensava no futuro: vou fazer academia, vou tomar remédio pra emagrecer, se preciso for, vou pedir ao meu pai pra pagar minha cirurgia...ah, meu Deus, como eu vou ficar LINDA quando colocar meus novos pares de seios, que nem a amiga da minha prima fez. Nota mental: pegar o nome da médica que ela foi. Isso, isso...e tem a tatuagem que eu quero fazer, poxa, ia esquecendo a tatuagem no quadril! Ah, mas isso é quando eu tiver 20 kg mais magra! Ela pensava no futuro que esperava por ela, ali, lindo e promissor. Enquanto isso, estava sentada, ouvindo o professor de sociologia dizer aquele monte de coisa que ela nem entendia, e na verdade nem se importava: identidade, classe social, indivíduo, poder...e o que ela tinha com isso? Queria mesmo era emagrecer, e ficar gostosa pra o Jorginho olhar pra ela e dizer que ela sempre foi o amor da vida dele. Ah, mas ele vai olhar pra mim. A aula terminou, e ela foi sozinha, de cabeça baixa até a parada de ônibus. Em cinco minutos, seu ônibus chegou, e ela partiu rumo à sua casa, onde sua mãe a esperava para o almoço. Chegou, falou pra sua mãe que já ia almoçar, e foi direto pro quarto. Entrou, trancou a porta, e parou. Ficou olhando pra o espelho, de longe, passou a mão no cabelo escorrido. Foi até a mesinha de cabeceira, e tirou um tesoura. Será que eu consigo? Consigo nada, eu não devia ter nascido! E pum, cortou o pulso direito. A mãe bateu na porta, notando que ela demorava a ir almoçar. Bateu duas, três vezes, quatro, e nada. LETÍCIA! LETÍCIA CRISTINA! MENINA, ABRE JÁ ESSA PORTA, ANDA! VOU CHAMAR SEU PAI! E ela abriu a porta, se esvaindo em sangue. A mãe desesperada, deu um tapa na cara da filha, e agarrou a menina nos braços, chorando.