quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Esse ser da madrugada

Passei muito tempo tendo de dormir cedo, eu acho. Dos 2 aos 15 anos era muito submissa aos horários dos meus pais. É estranho falar isso, mas é bem assim. Antes dos 2, era uma criança muito doentinha, passava a madrugada chorando, e só mais tarde foram descobrir que era problema de saúde: eram as amígdalas, elas inchavam, e eu chorava, não podia dizer o que estava acontecendo comigo. Antes de completar um ano de idade, não dormia quando era para dormir, não podia tomar banho de sol como os outros bebês porque era esse horário que estava pegando no sono; cresci adoecendo fácil pela falta de contato com o sol, com o chão quente, com a vida pulsante: meu mundo sempre foi minha mãe, minhas tias, e meu pai. Aos 5 anos eu descobri que havia um mundo fora de casa, descobri que eu podia sentir coisas que provavelmente eu só poderia sentir mais velha, mas não fazia mal, eram coisas novas! Me apaixonei muito, vivia romances com minhas bonecas, na minha cabeça, tudo em segredo. Eu era uma criança que tinha uma sexualidade e que não sabia lidar com isso, claro! E que sabia que era feio pensar e sentir certas coisa (fico pensando, ao escrever isso, se deveria escrever isso, mas dane-se! eu não fui a única, certamente!). Mas voltando à submissão aos horários! Bem, sempre tive problemas para dormir. Até os 10 anos, eu acho, minha mãe me botava para dormir na cama, e ficava cantando pra mim, me embalando, ninando mesmo, e como eu sempre fui grande demais pra minha idade e ela já não podia me colocar nos braços, ela sentava do lado da minha cama e me balançava com a mão no meu quadril, emitindo o som mais suave possível. Às vezes eu fingia que dormia só pra ouvir ela me deixar sozinha, e aí eu ficava vendo coisas nas paredes, no teto...e dormia, uma hora eu dormia. Tinha muitos, muitos pesadelos. E aí, aos 15, descobri muito mais coisas, mudei de casa, passei a morar com minhas tias. Essa foi uma fase que eu meio que não lembro muito bem, como se processou, mas me  mudei porque quis. Engraçado, eu que sempre fui submissa aos meus pais, tive o poder de decisão de ficar onde eu queria! Na casa das minhas tias eu podia dormir mais tarde, e cá estou hoje, mas agora com minha mãe morando aqui. Continuo dormindo tarde demais, ou cedo demais, vivendo uma vida a cada horário do dia, uma vida de madrugada que às vezes é solitária e chorosa, às vezes, como agora enquanto escrevo, é poética e nostálgica e pulsante e cheia de desejo. E me irrito muito fácil, com tudo. E sorrio muito fácil também. Estranho. Esse ser sou eu, esse da madrugada, que é muito mais sensível e legal do que o ser que as pessoas vêem sonambulando durante o dia.