quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Da infidelidade do tempo

Eu - O tempo trai a gente mesmo, sem dó nem piedade. Às vezes ele tenta até ser legal, porque a gente pode lembrar; ainda bem que a gente pode lembrar das coisas, isso o tempo não pode tirar da gente! Né isso?

Luana - E a lembrança não deixa de ser uma força de vingança. Porque o tempo nos mostra que vivemos certas coisas que poderíamos estar vivendo de novo, caso ele quisesse, mas ele nunca quer...

Eu - Acho que a lembrança é mais uma vingança mesmo, mas nossa, porque o tempo não pode evitar isso da gente, ele pode evitar que a gente viva muita coisa, mas o que a gente viveu, que ele tirou da gente, ele não pode evitar sempre, porque a gente pode guardar dentro da gente tudo, e até mesmo ele pode ser guardado dentro da gente, e eu acho que ele fica louco por ser tempo, por passar, entende?

Luana - É, porque ele mesmo não tem nenhuma segurança? Não é seguro ser tempo, não é seguro não ser nada além de tempo.

Eu - Não, e acho que no final ele queria isso pra ele, deixar de ser limitado, porque mesmo que ele passe, ele está limitado a ser isso, ele não pode se dar ao luxo do devir, porque ele é isso e pronto. Ou não? Deu pena do tempo agora, talvez seja inveja da nossa transitoriedade.

Luana - Queremos legitimar a nossa transitoriedade por não conseguirmos nunca alcançar a grandeza do tempo.

Eu - Ele é grande, e a gente tenta ser tão grande quanto ele...

Luana - Ele detém a felicidade, sempre vai existir alguém com felicidade no tempo, nós não. Mas também, ele detém todos os sentimentos. Todas as angústias do mundo.

Eu - Eu não acredito em felicidade... ela existe? Num é uma armação do acaso? Ou mesmo do tempo? Para que a gente se iluda?

Luana - Ou seria só uma terminação nervosa rápida como o tempo?

Eu - Terminação, ou começo, mas acho que ela é uma ilusão, ou mesmo... uma forma de a gente se consolar do nosso desamparo. Mas isso não é tão ruim porque mesmo ela não existindo, a ideia existe... mas isso basta?

Luana - É muito difícil entender que não existe o que se tem uma idéia, acho que sempre vamos estar no couro cabeludo do coelho, nunca no final do pelo como diria Platão. E isso é bom quanto menos sabemos da vida, mais confortável ela se torna.


Eu - E talvez seja melhor que haja essa película empatando a nossa visão da verdade, mas para que existiria então a curiosidade? E a ciência? Nada faria sentido se a gente não questionasse, e se a gente não se escondesse, porque se esconder faz parte de ser sujeito.

Luana - Ou não seria ilusão de saber? O tempo também nos mostra que sempre tivemos a ilusão do saber; um vai desmascarando e tirando toda a legitimidade do saber do outro como a ciência que sabia que os nativos não pensavam, mas hoje sabemos que pensavam sim, e sabemos tantas outras coisas da vida de hoje que amanhã alguém vai dizer que não sabíamos, era tudo ilusão porque tudo passa pelo campo da ilusão.

Eu - E o tempo mais uma vez olha pra gente de relance e ri, porque a gente perdeu, e ele ganhou, mas será q a gente perdeu mesmo? Eu acho que não; engano do tempo que é tempo, mas a gente pode ser tempo, porque a gente também passa, na vida dos outros.

Luana - Saber configurar nossa existência a nosso modo não é perder.

Eu - Mas eu digo daquela mania da gente de dizer que perdeu tempo...

Luana - Isso, não ficamos só no tempo do passado, ficamos no tempo do presente, porque também ficamos na mente e o pensamento também faz parte do tempo.

Eu - Então a gente faz parte do tempo, e nos construímos e desconstruímos por causa do tempo. Por causa dele, por ele, e nele.

Luana - E nele!

P.S.: Luana é uma pessoa muito especial, amiga e que esbanja luz pra todos os lados. Essa conversa foi ideia dela, completamente espontânea como só ela sabe ser, e eu aproveitei esse evento, e estou postando aqui hahaha, claro que com permissão dela ne? oras! =) 

Conversa muito feliz, e me encheu de esperanças de que a gente pode enfrentar o tempo, que não precisamos ter medo dele, e nem do que ele traz pra gente. 

Beeeijos pra tod@s!