domingo, 13 de março de 2011

Heart-shaped glasses


Ela sorriu como quem sorri por educação, como quem aceitava aquela desordem que prometeram iria acalentá-la. Olhou pela janela e apertou os olhos por detrás dos óculos em formato de coração. Era a primeira vez que lhe ofereciam tamanha promessa, e ela não sabia se o que sentia era admiração ou medo, só sabia que queria sair correndo dalí. Cruzou braços e pernas como quem protesta, mordeu o lábio despreocupadamente, mas deixou ficar o mesmo sorriso também despreocupado, dessa vez deslizando- o para o canto da boca vermelha. Seus lábios reluziam a pureza daquela dúvida que mais parecia uma certeza: mas de quê?
Já disse que era a primeira vez que lhe ofereciam tamanha loucura, mas ela agia como se tivesse muita experiência com o assunto. Mas era isso: ela nunca amara na vida, e se sentia culpada por isso, por não retribuir. Ela achava amar uma perda de senso, um pecado capital, um convite sem volta à fragilidade. E permanecia a contemplar o espetáculo do coração que brilhante pulsava à sua frente. Era a primeira vez que lhe presenteavam daquele jeito. Por que não um coração de papel? Mas era de carne, puro músculo. Ela refletiu; coçou a perna direita, tirou o óculos e ofereceu em troca do de carne.

(27/08/2010)

Marcelle Silva